Entrevista Bruno Maron
1) Muitas vezes um comentário é considerado engraçado pela velocidade em que é feito. O traço usado em suas tiras demonstra que você parece seguir um modo mais urgente de produção. Uma tira de humor pode perder a graça se houver excesso na elaboração?
Não muito. Aliás, acho que quase todas as associações são meio equivocadas. Eu vejo uma certa rivalidade entre os universos da erudição e o da tosqueira, assim como existe uma rixa técnica x brutalidade quando na verdade são coisas que, mescladas na medida certa, ficam lindas. Não acredito em purismo, numa visão oficializada da realidade. O Laerte já fez desenhos rococós que eu me escangalhei de rir, assim como já vi milhares de pessoas apostando numa traço precário pra levantar a graça e o efeito é justamente o oposto, fica ridículo. Tudo é uma questão de talento na manipulação dessas frequências.
2) Você acha que o pleno emprego dos trabalhadores tornaria as pessoas mais felizes ou só significaria um aumento no número de vendas de produtos supérfluos e na audiência dos programas de domingo à tarde?
Se emprego fosse sinal de felicidade, seria moleza! É só botar mais água no feijão. O problema não é esse, ao meu ver. Já nascemos na paranóia de arrumar um emprego desde cedo, mas não se pensa a respeito porque o sistema quer que você cumpra itinerários. É difícil ver uma pessoa analisando criticamente o que está fazendo de fato em seu emprego, são autómatos, homens-função, peças facilmente intercambiáveis numa engrenagem psicótica. O aspecto macroscópico da vida fica diluído na urgência da grana. Sem contar com as condições de trabalho, que geralmente são terríveis: paga-se mal, não tem “hora pra sair”, e os direitos trabalhistas são invariavelmente burlados. Não prego a destruição do sistema porque a vida foi erigida a partir de um jogo de forças sistematizado, mas acho que a gente tem que dialogar com mais vigor, questionar as relações de trabalho e sermos menos intimidados pelos centros de poder. Tudo é negociação, e numa negociação você não pode falar com voz fina.
3) Lynda Barry diz que as crianças nunca perguntam qual é a profissão de uma pessoa. Na sua opinião, os adultos são obcecados pelo trabalho ou a profissão é realmente importante para definir a personalidade de alguém?
Que engraçado voce falar isso! Outro dia eu fiquei imaginando uma criança dando um fora num adulto que faz a maldita pergunta: “o que você quer ser quando crescer?”. Porque é impressionante como as pessoas ficam apressando o seu processo existencial. “O que você vai ser quando crescer?” “Já arrumou emprego?” “Vai casar quando?” “Quando é que vai ter filho?” “Quando é que vai ter neto?” Só falta perguntar quando é que você tá planejando esticar as canelas. isso é um cacoete terrível da mentalidade medíocre: assassinar o agora pra assegurar o porvir. Nessa brincadeira você aniquila o processo e se torna um babaca. Acho que a vida é um processo digestivo, e o mal-estar social está enfiando um montanha de lixo pela nossa goela sem perguntar. A urgência, em raras exceções, é um falso problema.
4) Se todo o conhecimento sobre cultura inútil fosse substituído pela busca de desenvolvimento intelectual as pessoas salvariam o planeta ou apenas acelerariam seu processo de destruição?
É claro que viver chafurdado na cultural inútil é muito deprimente, mas a área trash da vida é importante e tem sua graça. O desenvolvimento intelectual não é sinónimo de virtude, ele pode até fomentar uma violenta competição de cabeçudos. O pensamento foi superestimado da história da humanidade, todos os projectos políticos, filosóficos, psicológicos e religiosos foram incapazes de dar conta da complexidade da diferença entre os viventes. Acho que o principal problema do mundo é o apego pela matéria, a noção de propriedade privada, a falsa ilusão de que somos donos das coisas, dos lugares e das pessoas. Não somos donos de merda nenhuma exceto da nossa memória e olhe lá. Salvar o planeta? Acho que o constrangimento sexual deveria ser a pauta do dia. As pessoas estão se masturbando no trabalho pra suportar um cotidiano árido. Totalmente culpadas e constrangidas. E quem não gosta de se masturbar? Acho que deveria ser obrigatório no ambiente de trabalho uma horinha do dia todo mundo ficar de bobeira, falando merda e batendo punheta. Sou a favor da descriminalização da punheta.

